Meu bairro, minha rua - histórias de casa e de amigos
Cruzando a cidade
19/8/2003 - 02:58:25 | Lilian Solá Santiago
Mudei muitas e tantas vezes que tenho preguiça de parar para contar quantas foram exatamente. Isso não me desagrada: gosto de novidade, novos ares, poder mudar quando quiser, apesar de morar em São Paulo significar para mim não sair da zona oeste, mais precisamente no perímetro dos "3 PPPs" - Pinheiros/Perdizes/Pompéia. O 4.o P é show (Pacaembú), mas é muita areia pro meu caminhãozinho classe média.
Nem sempre foi assim, e na minha infância as mudanças eram sempre dolorosas, porque eu não tinha nenhuma voz para escolher onde eu iria morar, e vivia na dependência da escolha dos meus pais, motivadas por razões que eu não conseguia entender.
Quando nasci, morávamos na Cachoeirinha, periferia da Zona Oeste. Dos 4 aos 7 anos moramos na Pedreira, na periferia da periferia da Zona Sul. A rua era de chão de terra, e poucas casas tinham um quintal só para elas, e a minha não era dessas. Dividíamos o quintal (que para miha escala era imenso, quase um Ibirapuera) com outras casas e na frente tinha um terreno baldio, que era o "campinho", onde eu e as outras crianças da rua, da rua de cima e da rua de baixo, empinávamos pipa e brincávamos de muitas coisas - corda, pega-pega, passa-anel, bafo etc. Adorávamos passar por debaixo da cerca do vizinho, pela plantação de mandioca e batatas, para comprar "xupe-xupe", geléia rosa-amarela, deliciosas porcarias do tabuleiro da Dona Lourdes, e brincar de cavalinho no seu jaboti.
Hoje, poderia dizer que éramos muito pobres, mas eu não tinha essa dimensão, porque tínhamos o mesmo poder aquisitivo que todo mundo em volta de nós, e realmente parecia que o mundo não tinha desigualdade nenhuma.
Mas um dia, meu pai falou que íamos mudar para as Perdizes, um "bairro muito bom", segundo minha mãe. Eu teria um quarto só para mim, e era perto do "Playcenter", o parque de diversões que eu adorava. Fiquei animada com a mudança, e feliz me despedi dos amigos da rua e da escola - ia morar perto do Playcenter, algo como dizer que eu iria morar perto do céu.
Na casa nova, na Rua Turiassú, eu nunca podia sair sozinha, passava ônibus, e não tinha nada parecido com um "campinho", nem se via crianças. Tinha um casal de irmãos quase da minha idade, vizinhos, mas demorei um ano para conhecê-los - só tive um motivo para falar com eles no meu aniversário do ano seguinte, porque ao contrário da Pedreira, nas Perdizes os colegas da escola (todos mais ricos que eu) viajavam nas férias de janeiro, que é quando faço aniversário, e se eu não os chamasse não haveria "quórum" para uma festa de criança! Comecei a achar minha vida muito triste e solitária, e a gostar da companhia (possível) dos livros. O tempo passou, muitas outras mudanças vieram, e é claro que me adaptei. Hoje sou novamente uma feliz moradora das Perdizes, e juro que é por livre e espontânea vontade.
Há poucos anos atrás fui para Carapicuíba, e resolvi voltar para São Paulo pela Zona Sul, passando pela periferia (Capão Redondo, Santo Amaro), ao invés de vir pela BR 116. Era um domingo de manhã ensolarado, e havia uma feira mais colorida que a outra a cada três ou quatro quarteirões. Aquela paisagem de morros preenchidos como formigueiros pela auto-construção - os bairros "perigosos" de São Paulo, os bairros dos pobres. Resolvi parar.
Parei numa feira a pretexto de comer um pastel e tomar um caldo de cana. Ao meu lado, num campinho, um monte de crianças se esbaldavam brincando de todas aquelas coisas que me davam tanto prazer na infância, ao ar livre, com aquele céuzão sobre a cabeça, com muitas pipas se entrelaçando.
A vida é engraçada. Pela primeira vez fiquei com pena das "pobres crianças ricas" dos 3 PPPs, que nunca brincaram na poeira da rua, nem comeram batata doce assada no barranco nas festas juninas. Hoje, para eu viver na cidade de São Paulo com qualidade de vida preciso de muito dinheiro (quanto mais melhor), prá poder morar "bem", andar de carro, comer em restaurantes, ir ao cinema, teatro, enfim ter prazer nos aparelhos culturais da cidade, que é o que mais gosto nela. Mas nesse dia percebi, sem demagogia e sem relevar as terríveis desigualdades, que a qualidade de vida para criança é outra coisa e agradeci (pasme) a dureza dos meus pais migrantes e iletrados, que me proporcionaram uma infância simplesmente maravilhosa.