Meu bairro, minha rua - histórias de casa e de amigos
Vizinhos de antes e de agora
24/5/2005 - 12:03:08 | jose luiz batista da fonseca
Sou do tempo em que vizinho era vizinho! Não essa coisa que é hoje, não! Esse ser um tanto quanto distante. Muitas vezes até que ignorado por nós. Muitas vezes ele é que nos ignora. E muitas vezes até é um verdadeiro ignorante!
Quando eu era pequeno, lembro dos vizinhos lá de casa. Gente como a gente. E talvez por isso, éramos todos muito próximos, muito unidos, muito amigos.
Faltava farinha pra fazer o bolo, lá ia eu na Dona Adelaide, duas casas abaixo da nossa, pedir uma xícara desse fundamental ingrediente, pois a mãe tinha mandado. E pensa que ela dava a xícara? Era logo o saco todo, de um quilo. E geralmente até dava os ovos também.
- Dona Adelaide, amanhã a mãe devolve.
- Não tem problema não. Pode ficar.
E a mãe não só devolvia, como ainda mandava, para a tristeza da nossa incontrolável gula, quase a metade do bolo pra Dona Adelaide.
Lembro quando o Seo Antonio, outro vizinho nosso, teve uma crise de não se sabe o quê. Ficou paralisado, entrevado, sem conseguir nem sair da cama. Uns diziam que devia ser corrente de ar fresco que ele pegou quando tentou sair da cama de manhã. Outros já apostavam que era espinhela caída ou coisa parecida. Outros mais palpitavam que podia apenas ser mau olhado mesmo. Só sei que a Dona Linda, mulher dele, ligou lá pra casa e pediu para a minha mãe benzer o marido.
É, a mãe tinha disso! Ela benzia as pessoas, mas vivia falando que era pra gente não contar pra ninguém. Não sei se era por resquício de medo da época da Inquisição da Igreja Católica, quando as mulheres que benziam e previam o futuro eram consideradas bruxas e por conseqüência eram mandadas pra fogueira. Mas apesar da minha mãe só benzer sem prever nada, como boa, fervorosa e devota religiosa praticante talvez tivesse mesmo era receio que o Padre Giuseppe descobrisse e não gostasse. Ou talvez, não quisesse ter muito trabalho de ficar tirando o mau olhado pra tanta gente.
Só sei que eu não contava não, mas gostaria de entender como quase todo mundo dali sabia. Acho que era a propaganda boca-a-boca. Como um dia tirou o quebrante de um, a notícia correu o bairro. Daí acabou o sossego. Era um tal de pedirem pra ela tirar o quebrante. Era reza pra netinha recém-nascida da Dona Ruth que não parava de chorar. Era reza pro Seo Agostinho que estava enfermo nos seus 98 anos. E daí vai... Mas minha mãe, no fundo, tenho certeza que fazia aquilo com o maior prazer se sentindo recompensada em poder ajudar os vizinhos.
Bem, mas esses foram os vizinhos de antigamente, que até tinham nome e eu os lembro como se estivessem ainda na minha vida. Agora quanto aos de hoje!
Quer um exemplo? Ouve essa. Outro dia estava eu chegando em meu prédio vindo do trabalho. Como andei com uma pedra nos rins - apenas um apêndice: dizem que essa é uma das dores mais doloridas. Dizem que se equipara a dor do parto. Nunca dei à luz, mas agora posso imaginar o quanto deve doer ter filho, não olhando o lado metafísico da coisa.
Como ia dizendo, como andei com uma bendita pedra no rim direito, meu médico, o Dr. Carlos Alberto Pinto (por sinal, com todo o meu respeito, um nome bastante apropriado para a especialidade) me recomendou que eu tomasse bastante liquido.
- O quê doutor, pode ser cerveja? (ainda bem que não o trato pelo sobrenome como é costume se fazer com pessoas importantes)
- Não, claro que não. Somente água.
- Mas dizem que cerveja é bom pros rins.
- Isso é folclore, pois ela ajuda é mesmo é a desidratar ainda mais o corpo.
- Mas, doutor!
- Mas e mas e mas. Olhaqui, quem é o médico aqui? Ou você segue o que eu digo ou...
- Ta bom. Me convenceu.
Lá passei eu então a tomar cerca de seis litros do incolor, inodoro e insípido (pelo menos deveria ser, como aprendi na escola) líquido. Êta coisa mais sem graça tomar tanta água assim. Mas como o Dr. Carlos mandou e eu sou obediente, lá passei a tomar essa quantidade toda diariamente.
E como tudo que entra sai, não foi diferente com essa cachoeira toda descendo pela minha goela abaixo. De alguma maneira haveria de sair. O problema é que não saia tudo de uma vez. Então era um tal de correr para o banheiro toda hora. Até deixava o zíper da calça já abaixado para facilitar minha vida.
Tinha dia que, acho, eu passava mais tempo no banheiro que em outro lugar. E não era só o dia não. A noite era a mesma coisa. Ia direto ao banheiro com tanta vontade de urinar e ainda por cima quase nem dormia com receio de fazer xixi na cama.
Só me faltava essa! Depois de velho fazer xixi na cama. Até lembro daquela música (acho que era o Fuzarca que cantava): O bom menino não faz xixi na cama. O bom menino aprende a lição... Tinha tanta raiva de ver aquele palhaço (palhaço mesmo!), o Fuzarca (acho que era ele) cantando essa música idiota (na minha cabeça rebelde) e moralista. Tinha tanta raiva dele, que se me confundi com o nome, dane-se!
Mas sei que era um tal de passar a noite dando descarga no banheiro que cheguei a pensar no que os vizinhos estariam pensando: naquele apartamento deve morar um grande cagão, é cagão - pois a gente sempre pensa no pior – e dos noturnos. Mas fazia parte do tratamento e do trato que eu tinha com o Dr. Carlos para tentar eliminar a tal da pedra e não ter que me submeter a algum processo mais drástico, tipo litotripsia ou valha o quê. Ademais, os vizinhos que se danassem com o barulho da descarga a noite toda. Pelo menos esses vizinhos. Vocês vão sabem porquê.
Bem, mas estava eu voltando para casa num desses dias e desesperado para chegar logo em casa e correr ao banheiro, sob o efeito daquele volume descomunal de liquido pressionando minha bexiga. E já vinha pelo caminho no ônibus em uma certa situação precária aflitiva. Estava até deixando de prestar atenção na leitura do jornal e até quase perdi o ponto onde devia descer, só para me concentrar na árdua tarefa de controlar meus esfíncteres. Sei que desci do ônibus rápido e traçando o trajeto mais curto fui direto rumo ao banheiro.
Aliás, só Deus sabe como desci daquele ônibus, com todo aquele sacolejo do percurso. Corri então, em passos miúdos, pois do contrario o resultado poderia ser vexatório, para o portão do prédio. Passei tão depressa pela guarita do Nildo, que nem o cumprimentei. Na verdade sei que ele estava lá, mas nem cheguei a vê-lo. A gente fica cego nessas circunstâncias. E pela minha expressão de desespero, acho que ele entendeu perfeitamente a situação. E até possivelmente, no caso dele, com seus quase quinze anos de portaria, deve ser a coisa mais natural. Só que na minha cabeça e bexiga não!
Olhei para o hall de entrada e avistei a vizinha do décimo oitavo andar já aguardando o elevador chegar.
Pensei rápido: ufa! Que bom! O elevador já deve estar chegando, me abreviando o tempo de espera. E sorte ter apenas uma pessoa para subir, e a do último andar do prédio, evitando assim tanta baldeação pelos andares deixando outros moradores e na certeza que eu ainda desceria antes que ela.
E até percebi que ela me viu passando pela portaria. Acontece que da portaria até o hall dos elevadores a distância é um pouco grande. Naquela situação era é quilométrica! E o elevador chegou antes que eu chegasse ao hall. E daí, sabem o que aconteceu?
Pois é! Não é que a safada, sem-vergonha, tomou o elevador sem me esperar. Me viu e fez de propósito. Quis subir sozinha no elevador, como se só ela morasse no prédio. É de matar, fala sério!
Mas não tem nada não. Deus castiga! Tomara que ela tenha uma diarréia um dia, daquelas bem bravas, que nem fralda geriátrica agüenta. Daí ela vai ver o que é bom pra tosse. E que eu esteja aguardando o elevador, só pra ela ver! Não só não vou esperar, como ainda vou apertar todos os botões dos andares, pra quando ela subir, demorar tanto tempo e que ela se borre todinha até o pescoço! Vai ver só!
Bem, tive então que ficar ali olhando o painel dos andares, marcando 2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,17,16,15,14,13,12,11,10,9,8,7,6,5,4,3,2,1 acendendo cada luzinha daquela. Cansou de ver tanto número? Imagina eu! Aquilo parecia a contagem regressiva de lançamento de algum foguete. No caso... minha bexiga quase indo pro espaço sideral.
Pude então, ali no meu desespero, trançando as pernas, entender o real significado do tempo. Como os milésimos de segundo são importantes. Como agem o pensamento, o cérebro e o resto do corpo, principalmente certas partes, em frações diminutas dos minutos e dos segundos.
E o mais importante: pude entender como eram sinceras e honestas as relações com os nossos vizinhos. Pude entender como havia mais amizade, carinho e afeto entre as pessoas. E, sobretudo, pude entender como a vida moderna nos transformou em seres insensíveis, frios e calculistas, mesmo diante dos sofrimentos dos outros com cálculos renais e coisas piores!