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Mesa paulistana - a comida da sua casa


  Passarinhada de pardais     8/6/2007 - 08:28:53 | Miguel S. G. Chammas

O titulo é insólito, mas a memória é real. Os anos são da década de 50, os personagens são meus amigos da época e que hoje andam pelos caminhos do mundo e tentando achar uma encruzilhada para nos encontrarmos novamente.

Esses amigos são o Zilando, o Juca Batista, o Sergio (que aparece nessas memórias pela primeira vez).

O cenário é a chácara do “seu” Freitas (pai do Zilando) que ficava no Rio Pequeno e que já apareceu em um texto anterior das minhas memórias.

Para se chegar a essa chácara era bastante difícil naquela época. Apanhávamos o bonde Pinheiros na Rua da Consolação e íamos até o ponto final que era no Largo de Pinheiros em frente à Igreja, descíamos do bonde e nos encaminhávamos para a Rua Butantã, onde pegávamos o ônibus para Osasco.

Assim que o ônibus passava o local chamado “Mercadinho” tínhamos de descer e fazer uma caminhada enorme subindo dois morros com um intervalo de descida entre eles.

Estávamos, então na porta da casa depois de na subida do segundo morro, termos passado pela piscina (Santa Terezinha) e depois por todo o pomar onde laranjeiras, limoeiros, caramboleiras dispersas nos ofereciam seus frutos e saciavam nossa sede até a chegada definitiva.

Nós jovens e inconseqüentes queríamos aproveitar todas as oportunidades surgidas para aproveitarmos daquele lugar delicioso e, para lá íamos sempre que a chance nos permitia, com ou sem dinheiro.

Aliás, dinheiro só para passagens e mantimentos que comprávamos para levar. Todos sabiam cozinhar e dividíamos as tarefas com coerência e responsabilidade.

Certa ocasião para lá fomos com idéia de ficarmos um final de semana. Levamos, lógico, mantimentos suficientes para nos alimentarmos sexta-feira, sábado e domingo, mas, domingo o dia transcorreu tão bem, o sol foi tão dadivoso e a piscina tão refrescante que fomos adiando a hora da saída.

Adiamos tanto que a tarde estava terminando e nós ainda estávamos nadando. Naquele tempo não haviam as facilidades de hoje. Não tínhamos condução constante, não tínhamos telefones celulares nem comunicações imediatas, mas para jovens tudo se torna fácil quando ele decide, e nos deliberamos naquele exato momento que pernoitaríamos por lá mesmo.

Saímos da piscina, decidimos no “palitinho” quem iria fazer o percurso de +/- 3 quilômetros para telefonar a uma das mães avisando-a de nossa decisão e pedindo para ela informar às outras mães.

Foi, então, que nos lembramos que não havia sobrado nada dos mantimentos levados e, pior, não tinhamos dinheiro suficiente para comprar comida.

Fizemos um levantamento na cozinha e encontramos 1 cabeça de cebola, 5 dentes de alho, ¼ de Óleo, 2 tomates, 1 lata de massa de tomate, sal e 1 quilo de arroz.

Olhamos-nos indagadoramente já imaginando qual seria a grande janta. Arroz seco.

Foi então que ao ouvir um barulho muito conhecido e até então, nada significativo, que este amigo teve a idéia salvadora da noite.

Coloquei de imediato uma panela grande cheia de água no fogo e comecei a esperar pela sua fervura. No mesmo instante, convoquei o Zilando e o Juca Batista para entrarem no forro da casa pela clarabóia da cozinha e começarem a caçar todos os pardais que encontrassem.

A tarefa era muito fácil já que o forro da casa era repleto de ninhos de pardais. Sugestão formalizada e imediatamente cumprida.

Lá se foram os dois pela clarabóia e momentos depois uma chuva de pardais com o pescoço destroncado caia por sobre mim que, de imediato os jogava na águia fervente, depenava-os, extraia as suas vísceras e reservava o pequeno montículo de carne e ossos que sobrava de cada um deles.

Ao final de algum tempo, tínhamos uma enorme baciada de pardais que foram cozidos no m olho dos tomates engrossado com a massa de tomate (não me lembro se a marca era Elefante).

Foi uma excelente passarinhada de pardais com arroz que nos alimento naquela noite, provando que com imaginação e vontade sempre se consegue dar a volta por cima.

Viva os pardais.... Ou será abençoada FOME?

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